Vozes que curam e vozes que narram: o ritual de cura na voz da Rezadeira Nazaré

  • Franciel dos Santos Rodrigues UEPB- Universidade Estadual da Paraíba
  • Patricia Cristina de Aragão UEPB- Universidade Estadual da Paraíba
Palavras-chave: Rezadeira.Cultura. Ritual. Memória

Resumo

O presente artigo expõe uma discussão no âmbito da Nova História Cultural, tendo em vista que por meio das novas perspectivas historiográficas que surgem em meados de 1980, o campo de pesquisa do historiador se amplia, ganhando novos objetos de estudos e caminhando entres outros saberes. É nesse sentindo que a pesquisa traz como objeto de estudo uma das tradições vistas como cultura popular, qual segundo Burke (1992) não se trata apenas de uma visão homogenia, mas de uma heterogeneidade cultural que abrange inúmeras tradições, manifestações e representações, dentre elas, o oficio de rezadeira. Tomando como problemática a analise sobre o ritual de cura e abarcando como elas podem circular entre outras tradições, na sua suma, só se tornou perceptível por meios dos depoimentos da senhora benzedeira Nazaré, que atua na cidade de Junco do Seridó,e que por meio de sua entrevista foi possível recolher as questões pertinentes para a pesquisa. Tal depoimento possibilitou uma abordagem ao recorrermos a sua memória e por meio dela compreendermos a dimensão desse ritual, enxergando ele através dos estudos de Thompson (1991) que analisa o ritual como toda e qualquer ação que fazemos cotidianamente, como o ritual da rezadeira no seu todo, que parte de como se dá o seu processo de iniciação que possui uma relação entre o sagrado cristão do catolicismo rústico e tradicional, a sua memorização das orações, seus símbolos e as restrições de seu ritual, como também as doenças e em que tipo de pessoas elas atuam enquanto benzedeira, além dos tipos de orações que elas utilizam. Doravante, é discutido como o ritual de cura circula entre o ritual da igreja católica, haja vista que as orações proclamadas pelas rezadeiras possuem uma forte relação com o catolicismo, além de sua própria simbologia, e por essas senhoras se reconhecerem como rezadeiras e católicas. É essa circularidade cultural introduzida por Ginzburg (1988) que se expõem como algumas tradições conseguem rodear entre outras tradições e permanecerem presentes em ambas as culturas. Para observar tais inquietações tomamos como base um diálogo entre a História oral e a memória abordada por Bósis (1997), a entrevista realizada com Dona Nazaré juntamente com o livro Ciência da Benzedura (1999) de Manoel Quintana, dentre outras obras, possibilitando assim um envolver maior entre a narração da rezadeira e os estudos sobre seu ritual. É nesse caminhar entre a nova História cultural, memória e oralidade que encontramos o lugar da rezadeira que se enquadra no que os estudiosos colocam como popular. Todavia, é nesse popular que as mais diversas manifestações se encontram, com ritos específicos e simbologias únicas como foi observado através da rezadeira Nazaré.  

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Biografia do Autor

Patricia Cristina de Aragão, UEPB- Universidade Estadual da Paraíba
Professora Doutora do Departamento de História da Universidade Estadual da Paraíba

Referências

Fontes

Entrevista

Maria Nazaré dos Santos, 66 anos, agricultora aposentada, Rua Balduino Guedes, Junco do Seridó PB.

Cartografia

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Publicado
2020-06-30
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  • Artigo 79
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Como Citar
Rodrigues, F., & de Aragão, P. (2020). Vozes que curam e vozes que narram: o ritual de cura na voz da Rezadeira Nazaré. Escritas Do Tempo, 2(4), 324-339. Recuperado de https://periodicos.unifesspa.edu.br/index.php/escritasdotempo/article/view/1150