Rússia, Ucrânia e União europeia: a construção da memória dos regimes autoritários do século XX e os limites da “justiça de transição”

Palavras-chave: Rússia, Ucrânia, União Europeia, Memória, Justiça de transição

Resumo

Este artigo tem como objetivo refletir sobre a relação entre a memória e a justiça transicional frente ao passado dos regimes autoritários europeus do século XX. A primeira parte consiste na análise, de um lado, de um conjunto de discursos e medidas memoriais de duas ex-repúblicas soviéticas, Rússia e Ucrânia; e, de outro, da repercussão destas entre a União Europeia e entidades afins, bem como resoluções em reação ou concordância. A segunda parte defende que as interações observadas na análise anterior resultam dos limites do conceito de “justiça de transição” no espaço pós-soviético. Para tanto, reconstitui a historicidade deste através de iniciativas institucionais de revisão do passado adotas durante o período soviético, pela Perestroika. Com o propósito de situar historiograficamente os casos estudados, o artigo começa pelas discussões sobre regimes de historicidade e memória que os permeiam.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Lúcio Geller Junior, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob orientação da Profa. Dr. ª Regina Weber. Graduado em Licenciatura em História e atualmente bacharelando pela mesma instituição. Membro do Grupo de Pesquisa "Identidades étnicas e racismo", na linha de "Imigração e identidades étnicas". Atua na área de História Oral, Relações de Gênero e Sexualidade e Memória pós-soviética, na linha de pesquisa de Cultura e Representações. 

Referências

ALBUQUERQUE, César. Perestroika em curso: uma análise da evolução do pensamento político e econômico de Gorbachev (1984-1991). 2015. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo – USP.

ÁLVAREZ, Javier Chinchón. Justicia Transicional. In: VINYES, Ricard (direction). Diccionario de la memoria colectiva. Barcelona: Gedisa, 2018.

ARTHUR, Paige. Como as “transições” reconfiguram os direitos humanos: uma história conceitual da justiça de transição. In: REATEGUI, Félix (org.). Justiça de Transição: Manual para a América Latina. Brasília: Comissão de Anistia, Ministério da Justiça; Nova Iorque: Centro Internacional para a Justiça de Transição, 2011.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

ASSMANN, Aleida. The Holocaust – a Global Memory? Extensions and Limits of a New Memory Community. ASSMANN, Aleida; CONRAD, Sebastian (orgs.). Memory in a global age: discourses, practices and trajectories. Houndsmills, Basingstoke, UK ; New York, NY: Palgrave Macmillan, 2010.

BAETS, Antoon De. O impacto da Declaração Universal dos Direitos Humanos no estudo da História. História da Historiografia, Ouro Preto, n. 05, p. 86-114, set. 2010.

BEVERNAGE, Berber. História, memória e violência de Estado: tempo e justiça. Serra: Editora Mil Fontes/Mariana: SBTHH, 2018.

CATROGA, Fernando. A representificação do ausente: memória e historiografia. Revista Anistia Política e Justiça de Transição, n. 2, Brasília: Ministério da Justiça, 2009.

CONQUEST. Robert. The Great Terror: Stalin’s Purge of the Thirties. Nova Iorque: Vintage Books, 2018.

CONRAD, Sebastian. Memórias entrelaçadas: versões do passado na Alemanha e no Japão, 1945-2001. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 44, p. 130-148, jan./abr. 2020.

GHODSEE, Kristen. Exonerando a los fascistas en la Europa del Este. Nuestra Historia, p. 19, 2017.

HABERMAS, Jürgen. A Kind of Settlement of Damages. New German Critique, n. 44, p. 25, 1988.

HARTOG, François. El tiempo de las víctimas. Estudios Sociales, Bogotá, n. 44, p. 12–19, 2012.

HARTOG, François. Regimes de historicidade. Presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

HARTOG, François. O tempo desorientado. Tempo e história. “Como escrever a história da França?”. Anos 90, Porto Alegre, v. 5, n. 7, p. 7-28, 1997.

JÚNIOR, Francisco das Chagas F. Santiago. Dos lugares de memória ao patrimônio: emergência e transformação da ‘Problemática dos lugares’. Projeto História, São Paulo, n. 52, pp. 245-279, jan.-abr., 2015.

KANGASPURO, Markku; LASSILA, Jussi. From the Trauma of Stalinism to the Triumph of Stalingrad: The Toponymic Dispute Over Volgograd. In: FEDOR, Julie (ed.) et al. War and Memory in Russia, Ukraine and Belarus. Cham: Palgrave Macmillan Memory Studies, 2017.

KUTKINA, Anna. Between Lenin and Bandera: Decommunization and Multivocality in (post)Euromaidan Ukraine. Faculty of Social Sciences, University of Helsinki, Helsinki, 2020.

MALIA, Martin. The Hunt for the True October. Commentary Magazine. Nova Iorque, 10 out. 1991. Disponível em: < https://bit.ly/3vAgt0V />. Acesso em: 30 mar. 2021.

MILLER, Alexei. The Turns of Russian Historical Politics, from Perestroika to 2011. MILLER, Alexei; LIPMAN, Maria. (eds.). The convolutions of historical politics. New York: Central European University Press, 2012.

NOLTE, Ernst. O passado que não quer passar. Novos Estudos, v. 3, n. 25, out. 1989.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo, PUC-SP, n. 10, dezembro de 1993.

PÉREZ BAQUERO, Rafael. Memory, narrative, and conflict in writing the past: when historians undergo ethical and political strains. História da Historiografia, Ouro Preto, v. 13, n. 32, p. 47–81, já,-abr. 2020.

PORTNOV, Andriy. Memory Wars in Post-Soviet Ukraine (1991–2010). In: BLACKER, Uilleam; ETKIND, Alexander. FEDOR, Julie. Memory and Theory in Eastern Europe. New York: Palgrave Macmillan, 2013.

POWASKI, Ronald. La Guerra Fria. Estados Unidos y la Unión Soviética, 1917-1991. Barcelona: Ed. Crítica, 2000.

RANCIÈRE, Jacques. Ainda se pode falar em democracia? KKYM: Lisboa, 2014.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, São Paulo: Unicamp, 2007.

ROUSSO, Henry. A última catástrofe. A história, o presente, o contemporâneo. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2016.

ROUSSO, Henry. Rumo a uma globalização da memória. História Revista, v. 19, n. 1, p. 265–279, 2014.

SCHNAIDERMAN, Boris. Os escombros e o mito: a cultura e o fim da União Soviética. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SEGRILLO, Angelo. A questão do “fardo” da agricultura na economia soviética e sua influência no desencadeamento da Perestroika. Estudos de História, v. 5, n. 1, 1998.

SHEVEL, Oxana. The Battle for Historical Memory in Postrevolutionary Ukraine. Current History, v. 115, n. 783, p. 258–263, 2016.

SOLJENÍTSYN, Aleksandr. Arquipélago Gulag: um experimento de investigação artística 1918-1956. São Paulo: Carambaia, 2019.

TALMON, Jacob. The origins of totalitarian democracy. Londres: Secker & Warburg, 1952.

TEITEL, Ruti. Genealogia da justiça transicional. In: REATEGUI, Félix (org.). Justiça de Transição: Manual para a América Latina. Brasília: Comissão de Anistia, Ministério da Justiça; Nova Iorque: Centro Internacional para a Justiça de Transição, 2011.

TRAVERSO, Enzo. A melancolia de esquerda: Marxismo, História e Memória. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.

TRAVERSO, Enzo. As novas faces do fascismo. Populismo e a extrema direita. Belo Horizonte: Âyiné, 2021.

TRAVERSO, Enzo. El totalitarismo. Historia de un debate. Buenos Aires: Eudeba, 2001.

TRAVERSO, Enzo. La historia como campo de batalla. Buenos Aires: FCE, 2012.

TROTSKY, Leon. A revolução traída. São Paulo: Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2005.

VASCONCELOS, Francisco. Alain de Benoist e a Nova Direita Europeia: gramscismo de direita, revolução conservadora e fascismo cultural. Princípios, v. 41, n. 163, p. 208–239, 2022.

VON PLATO, Alexander. A descontinuidade da ruptura do sistema e reorientação pessoal. História Oral, v. 10, n. 2. 2007.

WHITE, Hayden. O passado prático. Artcultura, Uberlândia, v. 20, n. 37, p. 9 - 19, 12 dez. 2018.

WOLFE, Thomas C. Past as Present, Myth, or History? Discourses of Time and the Great Fatherland War. In: LEBOW, Richard Ned; KANSTEINER, Wulf; FOGU, Claudio (ed.). The Politics of Memory in Postwar Europe. Durham, EUA: Duke University, 2006.

ZHURZHENKO, Tatiana. Geopolitics of memory. Eurozine, 10 mai. 2007. Disponível em: < https://bit.ly/3QBtTER>. Acesso em: 16 jun. 2021.

ZHURZHENKO, Tatiana. Heroes into Victims.The Second World War in Post-Soviet Memory Politics. Eurozine, 31 out 2012. Disponível em: <https://bit.ly/2JigM9O > Acesso em 18 de setembro de 2018.

ZHURZHENKO, Tatiana. Russia’s never-ending war against “fascism”. Eurozine, 08 mai. 2015. Disponível em: < https://bit.ly/3QBtTER>. Acesso em: 16 jun. 2021.

Publicado
2022-12-26
Visualizações
  • Artigo 32
  • PDF 22
Como Citar
Geller Junior, L. (2022). Rússia, Ucrânia e União europeia: a construção da memória dos regimes autoritários do século XX e os limites da “justiça de transição”. Escritas Do Tempo, 4(12), 55-79. https://doi.org/10.47694/issn.2674-7758. v4.i12.2022.5579